A Atrofia da Gestão sob a luz da NR-01

Nos últimos anos, as empresas vêm vivenciando dois fenômenos que, na minha visão, são intimamente interligados: a atrofia da gestão e o denuncismo.

Sob a ótica da atrofia da gestão, presenciamos líderes cada vez mais omissos em relação aos conflitos entre membros da sua equipe e coniventes com atitudes inapropriadas no ambiente de trabalho, deixando de exercer seu papel de gestor e de responsabilizar quem age de forma contrária às diretrizes internas de compliance. 

Como consequência direta da atrofia da gestão, vemos o aumento exponencial de denúncias nos canais de compliance das empresas, onde o tema macro “relacionamento interpessoal” (que engloba assédio moral, desvios de comportamento e discriminação) representa 49,2% do total de relatos registrados e os líderes e gestores somam 54,3% dos denunciados nas empresas brasileiras.

Esse cenário alarmante transcende a esfera disciplinar do compliance e atinge diretamente a saúde ocupacional, encontrando eco nas diretrizes da Norma Regulamentadora nº 01 (NR-01). Quando a gestão atrofia, o ambiente de trabalho adoece, transformando omissões da liderança em verdadeiros riscos psicossociais. Isso porque a NR-01 – em sua nova redação, que passou a exigir a identificação e gestão dos riscos psicossociais no âmbito do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) – estabelece que a saúde do trabalhador deve ser gerida de forma integral, o que inevitavelmente coloca a qualidade das relações interpessoais e o comportamento gerencial no centro da prevenção.

Para comprovar que esse risco é real e mensurável, basta olharmos para os dados. Quando falamos de saúde mental e riscos psicossociais, os números não mentem, por mais que muitos ainda tentem ignorá-los: apenas em 2025, o Brasil registrou a concessão de 559.983 benefícios por incapacidade ligados a transtornos mentais e comportamentais, como ansiedade e depressão. E o reflexo disso na Justiça do Trabalho é imediato, com mais de 600 mil ações por dano moral decorrentes de assédio recebidas nos últimos anos.

Agora, ou o líder assume o protagonismo da transformação, ou se torna o maior risco do seu próprio negócio. 

Diante dessa realidade, a saúde mental deixou definitivamente de ser apenas um “tema de RH” ou uma pauta subjetiva. Com a nova redação da NR-01, os riscos psicossociais passaram a integrar oficialmente o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Na prática, isso significa uma mudança de paradigma: a forma como o trabalho é organizado, cobrado e gerido passou a ser classificada como risco ocupacional.

Portanto, tratar a NR-01 como uma mera exigência burocrática tornou-se um erro estratégico grave. A verdadeira conformidade não se sustenta em documentos engavetados, mas exige a transformação da estrutura invisível da gestão, pois o comportamento do líder direto é a maior variável na saúde de uma equipe. 

E é justamente aí que essa estrutura invisível se revela: o adoecimento não começa com agressões extremas, mas nos microcomportamentos tolerados no dia a dia:

 

  • A mensagem às 23h exigindo resposta imediata (violando o direito à desconexão); 
  • A meta inatingível atrelada à humilhação pública;
  • A piada “inofensiva” que constrange e isola.

 

Quando a gestão atrofia, essas práticas são frequentemente ignoradas em nome do atingimento de metas. Contudo, no atual cenário normativo e corporativo, carisma ou alta performance não são mais salvo-condutos para abusos. Para reverter esse quadro, o líder responsável precisa dominar quatro papéis fundamentais: ser exemplo, promover o diálogo, exigir respeito e fiscalizar o clima.

Ao colocar esses papéis em prática, o líder converte o que antes eram consideradas apenas soft skills em verdadeiras medidas de controle dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Na prática, quando a liderança atua ativamente na mediação de conflitos e na correção de desvios em seu estágio inicial, ela funciona como a primeira linha de defesa da empresa. A gestão ativa substitui a omissão, transformando o canal de denúncias em um último recurso, e não na única válvula de escape para uma equipe adoecida pela inércia gerencial.

Em suma, a adequação à NR-01 vai muito além da mitigação de passivos trabalhistas. Trata-se de uma oportunidade devolver ao líder o que sempre foi sua maior responsabilidade: cuidar das pessoas que entregam resultados. E as empresas que compreenderem que a saúde do negócio é indissociável da saúde mental de seus colaboradores não apenas evitarão o “denuncismo” e o adoecimento de suas equipes, mas construirão ambientes de trabalho verdadeiramente sustentáveis, seguros e produtivos.

 

 

 Be.Aliant. 11ª Pesquisa Nacional de Canais de Denúncias. São Paulo: Be.Aliant, 2026. Disponível em: https://www.bealiant.com.br

Disponível em: https://www.gov.br/previdencia/pt-br/acesso-a-informacao/dados-abertos/dados-abertos-previdencia-social

https://www.cnj.jus.br/pesquisas-judiciarias/justica-em-numeros/

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