NR-1 e a saúde mental: a base estratégica das empresas que querem durar

Autora: Carolina Alves Chagas Pianetti

Co- Autora: Fernanda Assis Souza

Por muito tempo, a gestão de riscos no trabalho esteve voltada quase exclusivamente à proteção física. Máquinas, agentes químicos e acidentes visíveis guiavam as normas de segurança. Questões emocionais e psicológicas eram tratadas como fragilidade individual, quando não ignoradas.

Esse cenário mudou. Estudos passaram a evidenciar a relação direta entre a forma como o trabalho é organizado e o adoecimento psíquico. O crescimento dos casos de estresse crônico, ansiedade e burnout, intensificado durante a pandemia de Covid-19, consolidou um novo entendimento: de que a saúde mental também é segurança do trabalho.

Ambientes emocionalmente inseguros geram riscos reais. Sobrecarga constante, metas excessivas, falhas de comunicação e ausência de suporte impactam pessoas e negócios. O resultado é conhecido: aumento da rotatividade, perda de talentos, queda de engajamento e comprometimento dos resultados.

No Brasil, a atualização da NR-1, publicada em agosto de 2024 e obrigatória a partir de maio de 2026, consolida essa mudança de perspectiva. Ao integrar os riscos psicossociais ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), a norma reconhece que fatores organizacionais e relacionais também afetam a saúde e a segurança no trabalho, deslocando o foco da reação ao adoecimento para a prevenção.

A principal contribuição da NR-1 está justamente nessa mudança de postura. Não se trata de eliminar pressão ou desafios  inerentes ao ambiente corporativo, mas de estabelecer critérios claros, expectativas realistas e limites saudáveis.

Nesse contexto, a liderança assume papel central. Gestores que comunicam com clareza, organizam demandas e praticam a escuta ativa, contribuem para ambientes mais estáveis e produtivos. Pequenas atitudes do dia a dia fazem diferença e reduzem riscos que, muitas vezes, só são percebidos quando já se transformaram em afastamentos, conflitos, denúncias nos canais de compliance ou passivos trabalhistas.

Cuidar da saúde mental também significa construir uma cultura em que pedir apoio não seja visto como fraqueza, mas como responsabilidade. Políticas claras, práticas preventivas e ações contínuas de conscientização fortalecem relações de trabalho mais seguras e sustentáveis.

No fim, a saúde mental no trabalho vai além do cumprimento normativo. É uma decisão estratégica que conecta pessoas, desempenho e longevidade. Empresas que compreendem esse vínculo constroem bases mais sólidas para crescer, atravessar mudanças e manter resultados ao longo do tempo.

É esse cuidado, muitas vezes silencioso, que sustenta os negócios que realmente querem durar.

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